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O “Dia do Senhor”: breve estudo de Ap 1:10

Aprisionado na ilha de Patmos o apóstolo João menciona que recebeu suas primeiras visões no “Dia do Senhor” (Ap 1:10). A expressão grega, Kuriakê hêmera, aparece somente neste texto . Kurios é “Senhor” e o vocábulo kuriakê é um adjetivo possessivo que indica “do Senhor”, que neste caso, está determinando o substantivo hemera, “dia”. Assim, a tradução correta da expressão é “dia do Senhor”. Em hipótese alguma pode-se traduzir a expressão por “dia dominical” ou “domingo” como querem alguns . Qualquer teólogo sério e que tenha um mínimo conhecimento da língua grega sugeriria tal tradução. Em outras palavras, a expressão Kuriakê hêmera só pode ser traduzida como “dia do Senhor”. Desta forma, João faz alusão a um dia semanal que, antes da visão, ele considerava como “dia do Senhor”, propriedade do Senhor.

O grande debate de Apocalipse 1:10 não está sobre a tradução da expressão, visto que não haja problema gramatical que dificulte a tradução. Mas por séculos tem-se debatido sobre a interpretação da expressão. Afinal, que dia é este? É o dia escatológico? É o dia do imperador? É o domingo? É o sábado? Estas são as quatro principais sugestões apontadas ao longo da história por diversos eruditos. É necessário, portanto, averiguar todas hipóteses e ficar com aquela que apresenta mais coerência e sustentação bíblica.

1- O “DIA DO SENHOR” INTERPRETADO COMO O DIA ESCATOLÓGICO

Os defensores desta visão entendem esta expressão ligada ao equivalente “dia do Senhor” citado pelos profetas no AT e por Paulo e Pedro no NT. Em todas as referências este “dia do Senhor” é uma alusão ao grande e final dia de Deus, o dia do juízo final e seus eventos relacionados (Isa. 2:12; Isa. 13:6; Isa. 13:9; Jer. 46:10; Ezeq. 13:5; Ezeq. 30:3; Joel 1:15; Joel 2:1; Joel 2:11; Joel 2:31; Joel 3:14; Am. 5:18; Am. 5:20; Obad. 1:15; Zac. 1:7; Zac. 1:14; Zac. 14:1; Mal. 4:5; Atos 2:20; 1Cor. 5:5; 1Tess. 5:2; 2Tess. 2:2; 2Ped. 3:10).

É importante notar que no NT a expressão usada para este dia escatológico, o juízo final, é hemera tou kuriou – II Tes. 2: 2, hemera kuriou – II Ped. 3:10; ou ainda hemera christu – o dia de Cristo – Fil. 2:16 . Como visto, a expressão usada por João difere das expressões empregadas no NT para o dia escatológico do Senhor. Mas o maior motivo para rejeitar esta sugestão é o tempo da visão do profeta. Após descrever sua pessoa, o lugar em que estava, ele menciona o dia em que teve a visão. Assim, a expressão está ligado ao momento da visão e não ao tema da visão.

2- O “DIA DO SENHOR” INTERPRETADO COMO O DIA DO IMPERADOR

A História nos confirma que o Imperador romano era frequentemente chamado de Kúrios, “Senhor”, e consequentemente todas as coisas pertencentes ao Imperador eram denominadas de Kuriakós = “do Senhor”. Isbon T. Beckwith, no livro The Apocalypse of John, pág, 435 nos diz que o primeiro dia do mês era chamado na Ásia Menor – “Dia do Imperador”. Embora houvesse o “Dia do Imperador” e a expressão “Kuriakós” para designar as coisas pertencentes ao imperador, seria difícil concluirmos que João se estivesse referindo-se a um dia imperial, quando atentamos para o fato de que ele fora perseguido e estava exilado, na ilha de Patmos, por negar-se a prestar culto ao imperador. Assim, esta visão também deve ser descartada.

3- O “DIA DO SENHOR” INTERPRETADO COMO O DOMINGO

Destituídos completamente de evidências bíblicas, alguns veem em três testemunhos patrísticos do segundo século (Didachê 14:1; Epístola aos Magnésios 9:1, de Inácio e o Evangelho de Pedro 35 e 50) a oportunidade de associar a expressão “Dia do Senhor” ao domingo. Interessante que até mesmo nas obras citadas, somente o Evangelho apócrifo de Pedro, datado da última metade do segundo século que inegavelmente faz tal associação . Uma vez que esse documento foi escrito três quartos de séculos depois de João escrever o Apocalipse, ele não pode ser apresentado como prova de que o “dia do Senhor”, na época de João, se referisse ao domingo . É possível citar diversos exemplos da rapidez com que as palavras mudam de significado. Por isso, se a discussão é bíblica, não pode solidificar uma crença em citações patrísticas, nem tão pouco em uma única citação apócrifa do final do segundo século. O sentido de “dia do Senhor” em Apocalipse 1:10 é mais bem determinado por referências às Escrituras, e não à literatura posterior.

Desta forma, o que se torna mais importante para a interpretação da passagem é analisar biblicamente como os apóstolos, inclusive o próprio João, se referiam ao “domingo”. Há apenas oito referências ao domingo na Bíblia que sempre aparece como o “primeiro dia da semana”. Cinco destas citações mencionam a ida das duas Marias ao sepulcro de Jesus e sua ressureição (Mt 28:1; Mc 16:2, 9; Lc 24:1; Jo 20:1) e nota-se que não há, absolutamente, nenhuma orientação para substituir ou anular a observância do santo sábado, o sétimo dia. Os textos apenas descrevem a narrativa das mulheres indo ao sepulcro. É interessante perceber que Lucas ainda traz o detalhe de que Maria (mãe de Jesus) e Maria Madalena prepararam os aromas no “sexto dia”, descansaram no “sétimo dia” conforme o quarto mandamento e, no amanhecer do “primeiro dia da semana” foram ao sepulcro com os aromas (Lucas 23:56).

Outro ponto que necessita ser destacado é que Mateus e Marcos descreveram estes acontecimentos em 62 d.C. (31 anos após a ressurreição); Lucas narra-os em 64 d.C. (33 anos depois) e João descreve-os em 97 d.C. (66 anos após a ressurreição). Esta observação sobre as datas em que os quatro Evangelhos foram escritos é de suma importância porque, décadas depois da ressurreição de Cristo, eles nada dizem sobre a substituição do dia de “sábado”. Se, realmente alguma alteração na observância sabática tivesse sido determinada deveria está registrada, pois, tal mudança envolveria diretamente um dos mandamentos da Lei de Deus; lei esta que o próprio Jesus disse ser eterna e imutável .

A sexta referencia ao “primeiro dia da semana” ocorre em João 20:19, onde os discípulos estavam trancados em uma casa com medo dos judeus e Jesus aparece oferecendo-lhes paz e o Espírito Santo (Jo 20:19,22). Oito dias depois Cristo retorna e os abençoa novamente (Jo 20:26). Se Jesus tivesse alterado o dia de guarda, nesta ocasião seria talvez o melhor momento para comunicar seus discípulos, porém, ele não faz qualquer declaração sobre isso.

A sétima referencia ao “primeiro dia da semana” ocorre em Atos 20:7 e 8. Uma leitura atenta deste verso observando o cômputo de tempo judaico indica que eles partilhavam uma refeição comum no sábado a noite, que já era o primeiro dia da semana, e o apóstolo Paulo se prolongou no discurso até meia-noite. Não existe neste texto base para dizer que esta era uma reunião de santa ceia celebrada no domingo.

Por fim, a última referencia ao “primeiro dia da semana” encontra-se em 1 Co 16:2, onde Paulo orienta sobre a coleta para ajudar os crentes em Jerusalém. Esta deveria ser feita em casa, de forma gradativa no transcorrer da semana, para que, quando Paulo chegasse já estivesse pronta . Como visto, ao analisar todos os versos referentes ao domingo na Bíblia, chega-se a conclusão de que os escritores do Novo Testamento consideravam este dia apenas como “o primeiro dia da semana”, e que não houve nenhuma indicação de mudança na guarda do dia estabelecido por Deus, o sábado.

Tendo em vista que primeiro João escreveu o Apocalipse para depois escrever seu evangelho, se ele considerasse o “dia do Senhor” como o domingo, certamente no evangelho ele também registraria posteriormente tal fato. Mas como ele considerava o domingo? Como todos os outros apóstolos e escritores bíblicos, apenas como um dia normal, “o primeiro dia da semana” (Jo 20:1 e João 20:19).

4- O “DIA DO SENHOR” INTERPRETADO COMO O SÁBADO

As Escrituras nunca fazem qualquer conexão religiosa entre o domingo e o Senhor, ao passo que afirma repetidas vezes que o sétimo dia, o sábado, é o dia do Senhor. Primeiramente o sábado foi originado por Deus na criação (antes mesmo de haver pecado no mundo) e celebrado juntamente com o primeiro casal como um dia exclusivo de adoração (Gn 2:1-3). Assim, o Criador reservou um dia especialmente para o homem (Mc 2:27). Um dia de alegria. Um dia de comunhão. Um dia de adoração. Um dia para celebrar a criação e adorar o Criador. Um dia de revitalização do físico, mental e espiritual. Um dia de descanso. Um dia de bençãos. Um dia santo. Um dia de esperança. Um dia de redenção.

Este dia se perpetuou na história como um sinal eterno de Deus (Ex 31:12 e 13) e foi observado pelos patriarcas e Israelitas antes mesmo da lei do Senhor ser dada em tábuas por Moisés (Ex 16:23). Em seguida, no decálogo, o mandamento foi expresso e o “dia do Senhor” foi de forma clara e majestosa confirmado diante de todos: “O sétimo dia é o sábado do Senhor” (Ex 20: 10) . Os profetas de Deus se levantaram e anunciaram com intrepidez que o sábado é o “santo dia do Senhor” (Isaías 58:13).

João, o discípulo amado, conhecia muito bem as Escrituras, as palavras do Decálogo (Êxo. 20:10) e também a declaração de Isaías (Isa. 58:13). Ao conviver com Cristo ele percebe que o Salvador não cancelou a lei, pelo contrário, a confirmou (Mt 5:18) e tratou o sábado como Seu dia (Mt 12:8; Mc 2:27 e 28; Lc 6:5). Assim, ao verificar as inconsistências das demais propostas quanto a interpretação da expressão o “dia do Senhor” e analisar as evidências anteriores e contemporâneas dos dias de João de forma bíblica, pode-se concluir com segurança que o apóstolo estava fazendo uma referência ao sétimo dia da semana, o sábado, o santo dia do Senhor!

 

Everton Almeida
Everton Almeida
Everton Almeida é o pastor criador do projeto "Compreendendo as Escrituras". Para conhecê-lo melhor veja sua biografia. Encontre-o também nas redes sociais: Facebook | YouTube