O momento da entrega
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O paradoxo de Cristo à igreja de Laodicéia

Algumas descobertas arqueológicas ajudam bastante a reconstruir a história da potente cidade de Laodicéia. Alguns arqueólogos franceses, italianos e turcos desenterraram as ruínas da antiga cidade, que hoje podem ser vistas num parque que fica a seis quilômetros da moderna cidade de Denizli, na Turquia. Como resultado deste trabalho podem ser vistos dois imensos teatros (um deles com capacidade para 20 mil pessoas), um estádio olímpico com quase 350 metros de extensão, dois templos, três casas de banho, duas fontes conhecidas como “ninfeus” (em homenagem as ninfas) e um ginásio de esportes (SILVA, 2009, p. 94).

A localização de Laodicéia também contribuía para o seu desenvolvimento. A cidade estava situada em um lugar privilegiado com uma área muito fértil, cercada por ricas regiões de fazendas. Ficava há 160 km de Éfeso, 80 km de Filadélfia e 10 km de Colosso. Seis estradas cruzavam o seu interior, permitindo que ela fosse o centro de importantes rotas comerciais. Por estes fatores a cidade era uma espécie de alfândega que controlava as mercadorias em trânsito e cobrava os impostos. Parte dos tributos ficava na própria cidade e era usada no desenvolvimento de sua área urbana (SILVA, 2009).

Entretanto, três coisas que de fato chamavam atenção em Laodicéia: Seu centro bancário, a indústria têxtil e seu avanço na área médica, especialmente nos tratamentos oftalmológicos como a produção de colírio (FINLEY, 2012).

O maior centro bancário da Ásia menor ficava ali, especializado em câmbios de ouro e moedas estrangeiras. Na época de Roma os países dominados tinham moedas locais e só poderiam comercializar no exterior trocando-as por moedas romanas. Laodicéia, portanto recebia muito dinheiro do Império para ter suficiente capital de giro para as constantes trocas de dinheiro.

2) A industria têxtil era fortíssima, com uma valiosa produção de lãs finas, obtida a partir da criação de um raro carneiro negro. Vestes pretas, quase que exclusivamente, eram usados pelos laodicenses como evidência de sua riqueza. Eles produziam e exportavam tecidos finos. Sua grife era cobiçada pela mais alta sociedade imperial e o preço era elevadíssimo.

3) Era também uma cidade com preeminentes recursos de saúde no Império Greco-Romano. Uma das maiores escolas de medicina do mundo ficava bem no coração da cidade, situada especificamente no templo de Caru, um dentre uns duzentos templos no mundo antigo dedicado a Esculápio, o deus grego da medicina (ANDERSON, 1988). Sua fama decorria, principalmente, da arte de curar os olhos a partir de um colírio à base de alume ou sulfato, abundante na região. Pessoas de todo império iam se tratar com seus oftalmologistas.

O conselho que Cristo dá à igreja tem que ver com o que eles já estavam familiarizados: negócios, compras e dinheiro. Afinal, como fora mencionado a cidade era um centro comercial. Porém, Jesus surpreende sua audiência de duas formas: Primeiro, o Senhor pediu que eles comprassem o que mais tinham: ouro, vestes e colírio. Aparentemente isso não faz sentido. É a mesma coisa que alguém possuir uma fábrica de óculos e Jesus pedir: “compre óculos para você enxergar melhor”. Estranho, não é? Apenas aparentemente. Jesus não estava pedindo para eles comprarem no mercado. Jesus estava pedindo para eles comprarem dEle: “aconselho-te que compres de mim” (Ap 3:18). Sabe por quê? Porque para um povo que sofre de mornidão espiritual só o que Cristo oferece trará soluções satisfatórias.

Mas Jesus surpreende sua audiência pela segunda vez. Ele usa um paradoxo. Alias, nos evangelhos encontramos vários paradoxos de Cristo que desafiam nossa maneira de compreender as coisas: “Os últimos serão os primeiros” (Mt 20:16), “Aquele que quiser ganhar sua vida, perdê-la-á” (Mt 16:25), “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5:44).

Aqui em Apocalipse, Jesus mais uma vez usa um paradoxo, um contra-senso, dizendo que eles têm que comprar aquilo que Ele oferece gratuitamente. É como se Jesus tivesse dizendo: “comprem, mas é de graça” (ver Is 55:1). Em outras palavras, Jesus oferece aos laodicenses aquilo que somente Ele podia dar e nenhum dinheiro do mundo seria capaz de comprar.

1. Comprem ouro refinado no fogo- verso 18

O que significa comprar ouro refinado no fogo? Uma frase muito parecida aparece em 1 Pedro 1:7. Assim como o ouro precisa passar pelo fogo para ser purificado e ter maior valor, Pedro menciona que a fé quando provada também se torna mais pura. O que é fé? Uma definição que muito aprecio ouvi em sala de aula com o Pr. Amim Rodor (2011a): “fé é a transferência de confiança”.

Ao contrário do que se pensa, a fé não vale pelo seu tamanho, mas pelo seu fundamento! Em outras palavras o que conta não é o tamanho da fé, mas o objeto dela. Muitas pessoas tem muita fé. Fé no dinheiro, nos familiares, no cônjuge e até neles próprios. Todavia, de nada vale tamanha fé, pois está no fundamento errado. Certa ocasião Cristo afirmou que a fé pode ser pequena igual a um grão de mostarda, mas se ela estiver no fundamento certo, é isso que vale! (RODOR, 2011a). Era exatamente isso que os laodicenses precisavam entender. Eles por terem muito dinheiro depositavam toda sua confiança em seus bens. O que Jesus está dizendo é que eles precisam transferir sua confiança: da riqueza para Sua pessoa (a pessoa de Cristo)! Onde você tem depositado sua confiança? Qual é o objeto ou o fundamento de Sua fé? Estas perguntas são cruciais para o povo de Laodicéia hoje.

2. Comprem vestes brancas- verso 18

Os laodicenses usavam suas finas vestes pretas. Eram caríssimas e admiradas por todos, porém no âmbito espiritual eles estavam nus. Precisavam de outra vestimenta, as vestes brancas da justiça de Cristo. Ellen White (2010d) declara: “É Cristo Jesus que tem as veste imaculadas de justiça, tecidas nos teares do Céu, em quem não existe um filamento sequer da humanidade pecaminosa, [esta veste] está a mão direita de Deus para vestir Seus filhos crentes com a roupagem perfeita de Sua justiça”.

Na Cruz Cristo tomou o lugar do ser humano pecador. À Ele foi imputado os pecados de toda humanidade. Naquele momento Cristo foi legalmente declarado pecado. “Ele tinha pecado sobre si, mas como Deus encarnado, não tinha pecado em si; de modo que nós, justificados por Sua graça, temos justiça sobre nós, mas não em nós” (RODOR, 2011b, p. 18).

Em outras palavras, as vestes de justiça do homem não valem nada, e todos seus atos de bondade não passam de trapos de imundícia (Is 64:6). Assim, o ser humano pecador só é declarado justo com base no que Cristo fez e no que Ele oferece: Sua justiça. Jamais o crente deve esquecer de como ele é justificados diante de Deus.

3. Comprem colírio- verso 18

Ellen White (1978, p. 965) menciona que este colírio é “o verdadeiro discernimento espiritual”. É a graça espiritual que capacita o cristão a ver e distinguir entre o certo e o errado, entre o bem e o mal. E quem é responsável por conceder esta graça aos cristãos e guiar o crente no caminho certo? É o divino Espírito Santo (Jo 16:13). Ele é quem abre os olhos do homem. O crente só terá um verdadeiro discernimento espiritual se receber o Espírito em sua vida. Sem sombra de dúvidas, a maior necessidade da igreja hoje é o Espírito Santo. Devemos acatar as palavras de Paulo: “Enchei-vos do Espírito” (Ef 5:18), pois:

  • É Ele que testifica de Cristo (Jo 15:26)
  • É Ele que convence do pecado (Jo 16:7 e 8)
  • É Ele quem guia em toda verdade (Jo 16:13)
  • É Ele que vivifica os crentes (Jo 6:63 e Rm 8:11)
  • É Ele que dá poder para o serviço (At 1:8)
  • É Ele que ajuda o crente contra as forças do mal (Mt 12:28)
  • É Ele quem inspirou os profetas no passado e ilumina o cristão no presente (2Pe 1:21)

É interessante notar que em alguns momentos da história Satanás tem lutado para ofuscar algum membro da divindade. Quando Cristo veio a terra e se encarnou, as forças do diabo foram para matar Jesus. Ele usou de alguns meios e algumas pessoas e conseguiu seu objetivo. Porém, após a morte de Cristo o evangelho teve um alcance ainda maior, especialmente após o pentecostes com o derramamento do Espírito Santo. Então Satanás procurou “matar” Cristo de outra forma, infiltrando no seio do cristianismo diversas heresias com relação a natureza de Jesus. Desta maneira ele queria apagar a sublime pessoa de Cristo nos primeiros séculos da era cristã.

No século XVIII com a revolução francesa e o surgimento do iluminismo, Satanás quis apagar a figura de Deus Pai, enfatizando somente a razão para nortear o ser humano. Os racionalistas ocidentais foram levados a associar religião com ignorância de tal forma que agiram descontroladamente a ponto de endeusarem uma prostituta e a coroarem como a “deusa da razão”. A situação se tornou ainda mais dramática quando dezenas de Bíblias foram queimadas em praças públicas (WHITE, 2004).

Dorneles (2006, pg. 6) menciona que

A Era Moderna caracterizou-se pelo rompimento com a cosmologia criada na Idade Média e apurada pela Reforma. A nova visão do mundo entronizou o homem como senhor da História, e relegou Deus ao imaginário e ao mito.

Esta foi a grande estratégia do inimigo para ofuscar e até mesmo tentar apagar por completo a pessoa de Deus na vida dos seres humanos. No entanto, nos últimos momentos da história, seu ataque tem se intensificado contra o Espírito Santo. Por que? Por que de acordo com a mensagem de Cristo a Laodicéia, é do Espírito Santo que a igreja remanescente mais necessita! Parece que já é comum grupos dissidentes surgirem querendo polemizar sobre a personalidade e divindade do Espírito Santo. Por isso o apelo de Cristo a Laodicéia é: “Não matem o Espírito! É Ele quem vai ser derramado em abundância no tempo do fim para concluir a obra do evangelho. É Ele quem irá permanecer convosco até a consumação dos séculos. É ele quem vai trazer o consolo quando passarem pela grande tribulação. É Ele também que concede hoje o verdadeiro discernimento espiritual, o colírio que vocês precisam para ver!”.

 

Everton Almeida
Everton Almeida
Everton Almeida é o pastor criador do projeto "Compreendendo as Escrituras". Para conhecê-lo melhor veja sua biografia. Encontre-o também nas redes sociais: Facebook | YouTube