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A síndrome da mornidão

Jesus Cristo usa uma metáfora para descrever a condição espiritual dos laodicenses: Água morna. Água que não é quente, mas também não é fria. Não é quente o suficiente para oferecer um bom banho e não é fria o suficiente para ser agradável de beber. Esta metáfora usada por Cristo “pode ter sido tirada do abastecimento de água da região” como apontado por David Aune (2002, p. 263). A cidade de Laodicéia não possuía um abastecimento de água local, nenhum córrego de águas límpidas, nenhum manancial. A água tinha que ser trazida por meio de aquedutos que vinham de duas principais cidades: Hierapolis e Colosso.

Hierapolis era uma cidade próxima, ficava cerca de 10 km de Laodicéia, e possuía uma série de fontes de águas termais ricas em minerais especiais que a tornou famosa por toda a Ásia menor. Esta cidade se tornou um verdadeiro SPA de saúde nos tempos antigos, aonde pessoas de todos os tipos de males vinham de todos os cantos em busca de cura. Aquedutos em Hierapolis cruzavam o vale de Laodicéia e através deles que vinham as águas para abastecer a cidade. A água que vinha de Hierapolis para abastecer Laodicéia não chegava quente, mas morna, devido ao seu trajeto (FINLEY, 2012).

E as águas frescas e límpidas que viam de aquedutos de Colosso perdiam sua temperatura também e chegavam mornas igualmente. Além de morna, a água chegava ruim por causa de seu conteúdo mineral (AUNE, 2002). Assim, a água de Laodicéia era morna, desagradável, produzia náuseas naquele que bebia dando vontade de cuspir fora da boca.

Mark Finley (2012) declara que:

Jesus está falando através desta imagem para fazer seu povo enxergar seu grande problema. Os laodicenses não eram quentes, não tinham um destacado fervor espiritual, eles não tinham aquela paixão por conhecer a Deus, mas eles também não eram frios. Eles não haviam rejeitado a Deus. Eles não estavam pensando em seguir outro caminho. Eles eram mornos. Não muito maus, nem muito bons. Não hostis a Cristo, nem comprometidos vitalmente com Ele. Não absolutamente mesquinhos, nem entusiasticamente generosos. Não opondo-se a ajudar as pessoas, tampouco fazendo muito por elas. Nem frios, nem quentes.

Conforme supracitado, a mensagem de Laodicéia é uma mensagem atual, e lamentavelmente a síndrome da mornidão impera na atualidade. O que é um cristão morno nos dias atuais? Suas atividades não correspondem com sua realidade:

A Síndrome da Mornidão
As Atividades do “Cristão morno” A realidade do “Cristão morno”
Ele compra uma Bíblia Mas não estuda
Ele vai à  igreja Mas não se envolve com sua missão
Ele ouve o sermão Mas não se esforça para vivê-lo
Ele entrega o dízimo Mas não entrega a vida
Ele desliga a TV nas horas do sábado Mas não conecta sua vida com Cristo
Ele dá uma forcinha quando precisam de sua ajuda Mas não se compromete com nenhum projeto
Ele diz esperar a volta de Jesus Mas vive como se Ele nunca fosse voltar

Esse tipo de cristianismo causa náuseas em Jesus, por isto o mestre disse: “Quem dera fosses frio ou quente” (Ap 3:15). Seu apelo é: sejam quentes ou frios, mas não mornos! A palavra transliterada do grego para “frio” é psuchros e significa frio ao ponto de congelamento. E a palavra para “quente” é zestos e significa quente ao ponto de ebulição. Por isso, o escritor Taylor G. Bunch (1947, p. 221) declarou:

O frio que o Mestre prefere em lugar da mornidão é como o de um pagão não regenerado que nunca sentiu o toque de uma vida espiritual. Isto não significa negativamente frio, mas gelado, sem jamais ter sido esquentado ou misturado com o quente. Cristo prefere que os laodicenses sejam antes cristãos ou pagãos do que terem compromissos com ambos.

Mas porque Jesus prefere o gelado do que o morno? Ou como declarou Bunch, por que ele prefere um pagão ao invés de um cristão que não é genuíno? Duas considerações são suficientes para responder tais perguntas:

Primeiro é que o cristão morno dá uma falsa impressão do Cristianismo. Talvez fosse por causa de cristãos mornos que a famosa frase de Gandhi foi pronunciada: “Eu não me torno cristão por causa dos cristãos”. Matthew Henry (2003, p. 11) acertadamente observa que um ímpio ao notar a vida de um cristão morno indagará: “Essa religião não deve valer a pena, do contrário estes professos cristãos não poriam tão pouco o coração nela, ou não estariam dispostos a buscar prazer ou felicidade no mundo”. Ellen White (2010b, p. 188) corrobora este pensamento ao dizer:

Para o Senhor seria muito mais agradável se estes professos religiosos em mornidão nunca usassem o Seu nome. Eles são um peso contínuo para aqueles que seriam fiéis seguidores de Jesus. Eles são uma pedra de tropeço para os descrentes, os anjos maus exultam a seu respeito e escarnecem dos anjos de Deus por causa de suas vidas desgraçadas. Isto é uma maldição para a causa, tanto no lar como fora. Eles se aproximam de Deus com os seus lábios enquanto que o coração está longe dEle.

A segunda consideração é que o cristão morno é mais difícil de ter seu coração verdadeiramente transformado. Logicamente isto não tem que ver com o poder de Deus, pois não há vidas que o Senhor não possa transformar. Mas o cristão morno limita a atuação divina em sua vida. Ele acredita que está tudo bem, enquanto que um pagão ao receber a mensagem do evangelho rende por completo sua vida ao Senhor, e assim, Deus pode fazer mais por ele. Ellen White (2010c, p. 176) também declara:

Se fosses frio, então haveria alguma esperança de te converteres, mas quando alguém se cinge de justiça própria em lugar da justiça de Cristo, o engano é tão difícil de ser visto, e a justiça própria tão dura de ser abandonada, que o caso é o mais difícil de se decidir. Um pecador sem Deus, inconvertido, está em mais favorável condição do que um tal.

Por estes motivos Jesus prefere o frio ao invés do morno. Todavia, seu desejo é que sejamos quentes! John Wesley ainda respirando o avivamento espiritual de seus dias declarou, citado por Nicolás Chaij (1998, p. 27): “Dai-me cem homens que nada temam senão a Deus, que nada odeiam senão o pecado e que estejam resolvidos a nada conhecer senão a Cristo e Este crucificado, e incendiarei o mundo”. É este fervor espiritual que Jesus espera de Seu povo hoje!

 

Everton Almeida
Everton Almeida
Everton Almeida é o pastor criador do projeto "Compreendendo as Escrituras". Para conhecê-lo melhor veja sua biografia. Encontre-o também nas redes sociais: Facebook | YouTube