Um deserto no Jardim, um jardim no Deserto
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Visão da eternidade
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Jugo

Opressão ao estrangeiro, ao órfão e à viuva. Furto, assassinatos, mentiras, adultério. Esse era o cenário testemunhado pelo profeta Jeremias na terra de Judá (Jr 7:8-9). Além disso, o texto nos revela que a idolatria era tão abundante, que o profeta a descreve nos seguintes termos: havia tantos deuses quanto cidades em Judá e tantos altares pagãos quanto ruas em Jerusalém (11:13). E mesmo sendo infiéis à aliança, os líderes da nação se fiavam na presença do templo de YHWH com eles (7:4, 10). Como era de se esperar, o juízo divino e o chamado ao arrependimento haviam sido anunciados pelos profetas desde muito tempo antes. E – por mais frustrante que fosse – Jeremias já o tinha feito por vinte e três anos (25:3).

Mas o profeta não foi ouvido…

Assim, a derradeira profecia é anunciada ao povo de Judá: YHWH evocaria seu servo, Nabucodonosor para cumprir com o juízo divino (25:9). Então em 605 a.C., o servo de YHWH, o rei dos reis (Ez 26:7), Nabucodonosor, assalta Jerusalém, leva parte dos utensílios do templo, bem como parcela dos israelitas da linhagem real e da nobreza (Dn 1:1-4), incluindo o rei Jeoaquim (2Cr 36:5-8). Enquanto isso, em Judá, as coisas continuavam como estavam, fazendo com que o rei caldeu ordenasse que o rei suplente, Joaquim, fosse levado para a Babilônia com mais utensílios da Casa de YHWH (2Cr 36:9-10). Um novo monarca é estabelecido, Zedequias. E como ato de misericórdia divina, Jeremias é enviado com uma mensagem encenada para o novo rei.

A mensagem foi dada por meio de uma imagem sórdida. O profeta deveria fazer um canzil(מֹט֑וֹת) – a viga de madeira do jugo de bois – e com correias(מוֹסֵר֖וֹת) deveria prendê-lo ao pescoço (Jr 27:1-2). Isso o faria parecer, ou com um escravo cativo, ou com um animal de carga. Ambas imagens de submissão. A ênfase de Jeremias era que se Zedequias e os restantes de Judá, bem como as nações vizinhas, quisessem viver eles deveriam se submeter ao jugo do servo de YHWH, Nabucodonosor (27:8, 11, 12, 6). O restante da história é conhecido. Jerusalém e o templo são finalmente destruídos,

porque mais uma vez o profeta não foi ouvido…

Porém, o que chama atenção no livro de Jeremias é a palavra jugo(עֹ֔ל), ou sua peça principal, o canzil(מֹט֑וֹת). Nenhum outro autor bíblico parece enfatizar tanto isso (Quem sabe, porque apenas ele colocou um desses no pescoço…). E é aqui que as coisas passam a ficar interessantes: D-s não quer que ninguém fique sem carregar um jugo! Inicialmente, a ideia de se carregar um jugo, ou se submeter, é uma ideia negativa – sofrer o juízo de YHWH. Porém, o jugo a se submeter não é o de Nabucodonosor como rei dos caldeus, mas de Nabucodonosor como servo de YHWH (Jr 25:9; 27:6; 43:10). E segundo o próprio livro esse jugo seria quebrado para a restauração de Israel (i.e. Judá) depois de setenta anos (30:7-8; 25:12). YHWH é quem tem o controle das circunstâncias.

O jugo com correias(מוֹסֵר֖וֹת) ordenado por D-s pela mão de Nabucodonosor, e encenado por Jeremias, era para substituir o jugo com algemas(מוֹסֵר֖וֹת) de D-s que existira antes e que foi quebrado pelos líderes da nação (5:5). No texto do capítulo 5, o jugo está associado com o “caminho do Senhor” ou o “direito de D-s”. E de fato, para os judeus o jugo estava relacionado com a Torah – não como um peso, mas como um modus vivendi (1Jo 5:3; Mishnah Aboth, 3.5; Berakoth, 2.2). Desse modo, Jeremias é capaz de afirmar que é bom o homem suportar o jugo em sua mocidade, dentro de um contexto de misericórdia e de um estilo de vida altruísta. E tal jugo, segundo ele, fora colocado por D-s (Lm 3:22-33).

Agora, um novo Profeta (Dt 18:15; Mt 13:57; Jo 4:19) se levanta como Jeremias com um jugo nos ombros. Ele vem tal qual Nabucodonosor, como Servo de YHWH (Is 53:11) e – futuramente – rei dos reis (Ap 17:14). Num contexto de juízo (Mt 11:20ss), buscando estabelecer renovação de vida, Ele diz:

Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve (Mt 11:28-30).

Dessa vez, O Profeta será ouvido?

Samuel Shiguemoto
Samuel Shiguemoto
Samuel Shiguemoto é bacharel e pós-graduado em Teologia pelo Unasp-EC. Atualmente é capelão e professor de Ensino Religioso no Colégio Adventista Várzea Grande (Mato Grosso).